A construção da memória nos arquivos pessoais*


A seleção empreendida pelos próprios acumuladores em seus acervos pessoais está diretamente ligada à memória que o indivíduo deseja construir de si, de sua trajetória pessoal. Este processo de acumulação de documentos pode estar relacionado a um projeto claramente estabelecido por seu titular, que interfere de maneira a conformar seu acervo àquele objetivo, ou a outros de acordo com as alterações de interesses no curso de sua vida pública ou privada.

Quando o acervo é doado a uma instituição de memória e torna-se acessível aos pesquisadores é possível que lhes transmitam a sensação, ilusória, de que a documentação disponível não tenha sofrido qualquer mediação, e reflita a memória de uma realidade tal como fora vivenciada.

O investigador atento deve questionar-se sobre a constituição do fundo pesquisador, sua trajetória até a instituição visitada, tomar ciência sobre o fracionamento do acervo, localizar as outras partes que o constituem para não incorrer no erro de considerar apenas uma parcela pelo todo.

Tal fracionamento, muitas vezes de responsabilidade dos herdeiros do titular, é prejudicial para inteligibilidade do fundo, visto que tem sua ordem original rompida, silenciando informações úteis ao pesquisador, como, por exemplo, a sua lógica de acumulação.

Outro tipo de interferência que também realizam é a seleção e exclusão de documentos em prol de uma reconstrução da memória de seus ancestrais, conferindo novo sentido à trajetória pessoal do titular.
Para além do que já foi dito sobre o impacto da seleção dos próprios acumuladores e mesmo de seus herdeiros, o pesquisador deve estar ciente de mais um fator que pode interferir sobre os rumos de sua investigação: o trabalho do arquivista.

Ainda que sob normas de descrição e sob metodologia transparente e consequente de trabalho, o arquivista é, também, responsável por legitimar o caráter monumental de determinadas memórias construídas – tanto por ser profissional a quem cabe a preservação da memória, como por ser detentor de conhecimento técnico e científico para o devivo tratamento documental.

Consciente de sua ação, o arquivista define quais os documentos podem ou não se tornar fontes históricas e, ainda, as tornam acessíveis ao pesquisador. O acesso só é possível após seu trabalho de inventário e descrição, em cujo processo de execução confere prioridades para tratamento de acervos e privilegia dossiês para serem descritos, de acordo com parâmetros explicitados e documentados.

Diante de tudo o que fora exposto, ressaltamos que o investigador não pode, ou melhor, não deve debruçar-se sobre seus documentos sem antes atentar para a cultura do conjunto em que estão contidos, muitos vezes, capazes de estimular questionamentos reveladores simplesmente através de ausências detectadas nos corpus documentais.

*O texto acima é reprodução integral de uma dissertação realizada para a cadeira de Arranjo e Descrição Arquivística, oferecida pela UNIRIO, em novembro de 2009.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s