Para quem tem medo de aranhas, diz-se que tem aracnofobia. E para quem tem medo de lagartixas?! Nunca ouvi falar! O medo é tão grande que nunca tive vontade de procurar… Até este momento. Apesar de um parco esfoço, não achei o que desejava saber. Apenas encontrei algumas informações, que constam no final deste texto – para quem se interessar e/ou for corajoso.
Tenho trauma de lagartixas, desde a infância, quando uma resolveu passear sobre mim. Memórias e lagartixas são coisas que só combinam no livro “O Vendedor de Passados”, de Jose Eduardo Agualusa. Confesso que é uma mistura inusitada, mas para quem tem a imaginação aberta às novas experiências literárias consegue ser bem surpreendido pelo autor angolano.
Passado o desconforto de ter que ver uma osga (lagartixa) retratada na capa do livro, consegui passar à leitura da narrativa que trata da história de um sujeito – Félix Pacheco – que vende passados falsos a importantes elementos da sociedade angolana. Colecionador de livros, jornais, revistas, vídeos e tudo o mais que o possa ajudar na composição de genealogias ilustres para seus clientes, Félix vive em um casarão e tem como melhor amigo uma osga, a narradora da trama!
Algumas considerações:
1- Através deste livro, o autor aborda um assunto que muito me interessa: a construção da memória. Acho fascinante a maneira como elaboramos as nossa memórias, que nunca é uma tarefa individual. A memória é construída socialmente. Baseamo-nos nas nossas lembranças, mas também naquelas dos que nos rodeiam. Com a junção de experiências distintas, compomos o cenário de um acontecimento. Escolhemos o que é relevante lembrar e, principalmente, o que devemos ou queremos esquecer. E este é um fenômeno que não ocorre apenas no âmbito individual, é também uma prática coletiva.
A partir da seleção, o historiador se lança às pesquisas e, então, pode compor suas versões históricas. Através do estudo aprofundado sobre a relação entre história e memória, compreendemos como se constroem e se consolidam os mitos de origem, os heróis nacionais, as justificativas para determinadas ações políticas. Sobre este tema, vale a pena ler Michel Pollack, Jacques Le Goff, Maurice Halbwachs, Pierre Nora.
2-Há algumas formas de uso no que tange à memória. Em busca de um consenso nacional, o poder político investe nas lembranças das grandes datas, de maneira a encontrar no passado uma legitimidade histórica que permita consolidar a memória coletiva. Firmar a identidade nacional ou, no caso dos clientes de Félix Pacheco, reelaborar uma identidade pessoal. São prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia angolana que têm futuro assegurado, mas falta-lhes um bom passado. Um passado que os tornem respeitáveis e que legitime o lugar social que ocupam. Mas não é sobre isso que gostaria de escrever. O que importa, neste caso, é quem se torna o editor deste passado. A profissão de genealogista, como o próprio Félix se intitula, tem muito a ver com a do Historiador e com a do Arquivista. Sim! O arquivista é dotado de conhecimento técnico-científico para elaborar genealogias, o que passa pelo domínio de heráldica, diplomática e paleografia. A este profissional cabe a responsabilidade de exercer com ética a sua atividade, ao contrário de Félix que fabrica genealogias de luxo para seus clientes.
3- Outro aspecto que cabe dar destaque refere-se à apropriação da memória! É muito interessante perceber como os personagens se apropriam das memórias que lhes são construídas, tornando-as verdades socialmente incontestáveis.
“Nada passa, nada expira / O passado é um rio que dorme / e a memória uma mentira multiforme.”
Editora: Gryphus
Autor: JOSE EDUARDO AGUALUSA
ISBN: 8575100920
Origem: Nacional
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 199
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
Últimas considerações:
Ainda bem qe não acredito em reencarnações. Caso contrário, teria dificuldades para espantar a próxima lagartixa que aparecesse no meu caminho. Sobre Osgas:
Nome científico: Rhacodactylus leachianus, Gekko gecko, Gekko smithi, Uroplatus fimbriatus
and Saltuarius cornutus
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Gekkonidae
Habitat: Áreas florestais
Hábitos: Dependendo de cada espécie, pode ser diurno ou noturno.
Nome comum: Lagartixa
Características: As lagartixas têm facilidade para subir em qualquer lugar.Isso porque elas possuem uma espécie de pequenas laminas cobertas por pêlos microscópicos em forma de ganchos e são esses pêlos permitem a esses animais escalar muros, vidros de janelas e andar pelo teto de cabeça para baixo. É comum que as lagartixas se instalem em nossas casas, mas isso é bom, pois se alimentam de insetos daninhos, como as traças e mosquitos. São animais frágeis, de coloração bege clara e olhos escuros.
A reprodução é ovípara. Geralmente, as fêmeas põe entre 1 ou 2 ovos e guardam em cascas de árvores ou fendas em pedras. Existem mais de 400 espécies de lagartixas nas regiões quentes do mundo.